Patsy
Parado naquele quarto há mais de uma hora de joelhos, já doía tudo. O ar condicionado forte incomodava, mas a determinação em cumprir a tarefa era mais importante. Continuaria ali pelo tempo que fosse, até que ela dissesse: “Basta!”. Do banheiro a ouvia cantarolar músicas tão suaves e doces que evidenciavam ainda mais o paradoxo que era aquela mulher.
Alta e forte, mas ao mesmo tempo tão meiga e sorridente. A mulher que lhe estapeava a face dizendo: “Cale-se, você merece!”, era a mesma que lhe beijava a boca suavemente e sussurrando: “Minha namoradinha lésbica!”. E lembrando dessas palavras, seu peito inflava de carinho. Não era seu escravo, não era sua escrava, era sua menina e tal pensamento o enchia de orgulho. E quando a porta abriu, ela saiu linda no alto de seus saltos, macacão negro, cabelos presos e maquiagem impecável. Não era mais a menina que entrou serelepe no banho, era uma Senhora, a sua Senhora.
- Cansado? – ela perguntou com uma expressão indecifrável no rosto.
- Não, Senhora. – disse com os olhos baixos. E subitamente sentiu um tapa a estalar sua face, ardendo, doendo…
- Mentiroso! Levante-se e me traga aquela bolsa rosa que está no canto do quarto.
E ele levantou com dificuldade, foi tanto tempo ali, na mesma posição, ajoelhado que estava difícil ficar de pé, mas conseguiu. Foi pegar a bolsa que esteve ali parada, estrategicamente deixada naquele canto, à sua vista, durante todo o tempo que esteve ajoelhado e nu à espera de sua Senhora. Período em que humilhado deixou sua mente voar, imaginando o que haveria naquela bolsa. Ela era sempre tão meticulosa, pensava nos mínimos detalhes e antecipava todas as suas necessidades e desejos. Às vezes tinha a impressão que aquela mulher era capaz de ler seus pensamentos, e isso o enchia de medo. Medo que ela tornasse real seus mais loucos desejos.
- Eu não sei por que não desisti de você, sabia? Você não me merece… – ela disse com a voz calma, mas havia naquela frase uma ponta de tristeza. Mais uma vez ela leu seu pensamento.
- Eu peço perdão Senhora, e agradeço que não tenha desistido. – disse visivelmente envergonhado e arrependido. Não estava acostumado a tanto amor e compreensão, essa era a verdade.
- Não me agradeça, me obedeça e eu talvez te perdoe. – falou acariciando com suavidade sua face.
Andou com calma à sua volta, acariciou seu corpo, deteve-se em suas mamas secas e com as unhas calmamente beliscou seus mamilos, fazendo-o sentir dor, quase gemer arqueando um pouco o corpo. Curiosamente não via tal ato como um castigo, mas uma carícia que o fazia sentir-se vivo apesar da dor, não era sonho, ela realmente estava ali a beliscá-lo. Continuou a acariciá-lo, por trás dele com as duas mãos tocou suas nádegas, afastou-as, chegou a pensar que ela o invadiria com seus dedos, mas não… Ela acariciava seu corpo andrógino como se mudamente tentasse fazê-lo consciente do mesmo. Cabelos, face, colo, abdômen, nádegas, coxas… No entanto em momento nenhum tocou seu sexo, não como se evitasse, mas como se ignorasse.
- Vamos ficar bem linda pra mim?! – ela meio que perguntou afirmando, não havia possibilidade de um não como resposta.
Ela retirou alguma coisa da bolsa, uma nécessaire e pelas mãos guiou-o ao banheiro. Ele não tinha atitude, apenas a seguia, obedecia e confiava. Ela ligou o chuveiro, escolheu o ponto certo da água, nem quente e nem fria, pediu que entrasse e se ensaboasse, fazendo bastante espuma. Pedido… Uma ordem implícita, como dizer não?! E próximo a pia do banheiro ela o aguardava com uma navalha de barbeiro. Com calma foi livrando-o de seus pelos, depilando não apenas seu corpo, mas a sua alma também. Teve vontade de chorar emocionado enquanto ela cantarolava feliz. Eles nada diziam, às vezes tinha a sensação que ela o ignorava como pessoa, era um brinquedinho, uma boneca em sua mão. E depois de tê-lo depilado quase que completamente, inclusive contorno anal e axilas, ela deixou apenas um tufo de pelos, delicadamente aparados sobre o púbis.
Encaminhou-o novamente ao chuveiro dando dessa vez uma touca de banho bem ao estilo fru-fru, cheia de babadinhos e detalhes cor de rosa. E enquanto ele deixava a água escorrer sobre seu corpo, levando embora o que restara de seus pelos tão masculinos, ela o guarnecia de toda a sorte de produtos femininos. Sabonetes, cremes, óleos… E quando terminou, ela o aguardava com um lindo e felpudo roupão cor de rosa e pantufas atoalhadas no mesmo tom. Pela primeira vez em sua vida, começava realmente a sentir-se uma mulher. Principalmente por que ela em nenhum momento tratava-o como ele e sim ela.
No quarto, ela abriu uma outra nécessaire, esta repleta de cremes, perfumes, maquiagens, esmaltes… Juntas escolheram a cor que usariam em suas unhas enquanto conversavam amenidades sobre as desventuras femininas para estar sempre lindas. E enquanto ela aos poucos a transformava, sentiu um aperto no peito, era uma felicidade doída a realização daquela fantasia. Pensou no que o mundo poderia pensar e lembrou que não estava diante do mundo, mas apenas diante dela e sem perceber deu um suspiro. Havia alívio, mas também uma certa frustração. Focou seu pensamento na transformação, reclamou um tiquinho quando ela convenceu a limpar um pouco as sobrancelhas. Entregou-se à maquiagem com paciência, tantos cremes, bases, corretivos, tudo a deixava ansiosa. Ansiedade que não foi amenizada após a maquiagem, já que ela a proibiu de olhar-se no espelho.
Começou então a vestir-se, quando viu o conjunto de calcinha e sutiã branquinhos, quase uma linha menina-moça, cheia de rendinhas e fitas, ficou exultante, mas um pouco decepcionada, faltavam seios, faltava volume. E como que adivinhando o seu descontentamento, ela tirou da bolsa um enchimento de espuma e também outro de silicone, e aos poucos, com jeito foi ficando cada vez mais menina. E aquela sensação de estar pela primeira vez livre dos pelos, maquiada, com seios e um aspecto bem feminino quase a levava às lágrimas. Cada momento que se passava sentia-se mais mulher.
Sobre o sutiã ela vestiu uma blusinha, quase um falso corset, e para completar vestiu uma saia de renda curtinha que a deixava com um ar bem sapeca. Calçou meias ¾ no tom da saia e sapatilhas ao estilo bailarina, sentia-se uma adolescente que se arruma para sua primeira balada. Estava feliz, principalmente quando entre um detalhe e outro ela comentava: “Como está ficando linda a minha menina…”. E quando finalmente ela tirou da bolsa uma peruca ao estilo chanel de franja, pensou que não caberia mais em si. Era a realização completa, não agüentou e caiu no choro, emocionada.
- Não! Não chore, vai borrar a maquiagem… Até por que não acabou! – ela disse encaminhando-se para pegar mais um acessório em sua bolsa.
E diante dela – sim era uma mulher finalmente – pediu que ficasse diante do espelho. Não era mais um ser andrógino que não enaltecia a masculinidade para desaperceber-se da feminilidade embutida. Era uma mulher, uma menina linda, delicada e não uma caricatura feminina. E antes que se voltasse para sua Senhora em agradecimento, ela pediu que esperasse. Da bolsa havia tirado um saquinho em veludo negro e com as pontas dos dedos segurou uma correntinha dourada com um pingente. Posicionou-se por trás dela, colocando o cordão que trazia uma letrinha P.
- P… Por que P, Senhora? – perguntou intrigada.
- P de Patsy, minha linda. Uma menina tão bela e sapeca merece um nome à altura. De hoje em diante você será a minha Patsy e é melhor retocarmos a maquiagem, estou a fim de me acabar na balada, vamos?!

29 de março de 2007 







Amei este texto: você quase que libertou a menina dentro de mim
Beijos,
Matt.
Nossa !!!Fiquei excitadissíma com sua estória. Uau!! Onde esta essa mulher? Conta mais.