Tanta gente veio perguntar que acabei lendo o Cinquenta tons de cinza, de E. L. James. Abaixo, algumas anotações, já completando o que gente que leu antes de mim percebeu:
É muito mal escrito – Sim. Mas não se pode esquecer que, assim como outros livros que foram concebidos para serem bestsellers, ele foi projetado para atingir gente que quase nunca lê. Seria a classe D da intelectualidade. Se um livro contar apenas com os letrados do mundo estará destinado a ser lido apenas por eles. E, vamos combinar, somos minoria. Para chegar aos milhões de leitores, é preciso envolver gente que quase nunca lê. Tem que fazer novela por escrito. Então, como literatura é uma desgraça de ruim. Mas, como peça de comunicação, é muito eficiente.
Desperta fantasias ocultas das mulheres – É verdade. Mas não a de ser subjugada por um dominador tesudo. A fantasia suprida pelo livro é a do príncipe encantado.
Assim que comecei a ler Cinquenta tons de cinza, lembrei demais do Crepúsculo, outro blockbuster das livrarias. Veja as coincidências:
1) As protagonistas são moças virgens, sem-graça e desajeitadas.
2) Um sujeito lindo, jovem, rico e tão perigoso que poderia matá-las cai de amores por elas. Cai mesmo. De quatro. Dessa maneira, o perigo representado por esses machos alfa é subjugado pela paixão que nutrem por essas mocinhas … tão deslambidas.
3) Todas as mulheres do mundo olham admiradas para esses semi-deuses. Mas eles só têm olhos … para a mocinha deslambida que protagoniza a história.
Dá para perceber uma fantasia feminina muito clara que é suprida por ambas as histórias. Mas ela não tem nada a ver com dominação. As meninas deslambidas fazem gato e sapato com seus machos-alfa.
O que temos, mais uma vez, é Cinderela, mil vezes replicada porque corresponde – ela sim – a um desejo feminino que subsiste por séculos e séculos amem.
Cinquenta tons de cinza tem a ver com dominação sim. Mas é com a dominação das leitoras por um texto que mexe com suas fantasias inconfessáveis: a de encontrar um maridão que as sustente regiamente sem roncar à noite e nem passar o domingo de pijama diante da TV.
O livro ainda presta um desserviço ao sugerir uma pretensa superioridade do sexo baunilha sobre os outros. Porque, queridos leitores, a baunilha verdadeira só se revela quando sua fava é raspada por uma lâmina afiada. Eis uma contradição para fazer pensar os amantes do pudim instantâneo sabor baunilha – aquele que vende milhares de caixinhas nos supermercados.






